quinta-feira, 29 de março de 2012


Um balanço para sonhar



Eu tinha seis anos quando ele chegou ,um balanço de ferro  pintado em três cores. Era um sonho.

Até esperar o cimento secar para que pudéssemos brincar foi difícil.

Em poucos dias o interesse dos meus irmãos foi diminuindo e o balanço era meu por várias horas.

No balanço eu sonhava, via meu futuro, e o que eu gostaria de fazer quando adulta, ali eu podia chorar sem que ninguém visse e podia ser o que eu bem entendesse: astronauta, marinheira, cantora, estrela.

Eu tinha grande habilidade e balançava em pé, a muitos metros do chão, o mais alto que conseguisse. Eu falava com Deus e ele me respondia com o vento.

Aos nove anos, foram me buscar na escola, minha irmã de sete anos havia caído do balanço e fraturado o crânio.

Quando o acidente ocorreu, ela disse, para meu primo e meu irmão que assistiram a cena, que ia balançar como eu.

O balanço foi trancado a chave, e muitos me culparam pelo ocorrido.

Algumas vezes quando eu ficava só em casa, eu roubava a chave e balançava bem baixinho, sem que ninguém visse; Em poucos meses o balanço foi retirado e colocado em um porão.

Minha irmã se curou sem seqüelas, apenas a cicatriz que ficou como um pequeno afundamento na cabeça. Ela jamais me culpou pelo ocorrido.

Mudamos de casa e o balanço foi entre a mudança e ficou jogado com os materiais de construção.

Certa feita, quando chegava da escola, então com 13 anos, encontrei meu Lôlo e minha mãe discutindo, ele havia instalado o balanço no quintal preso a uma lavanderia que estava fazendo para minha mãe, para retirál- seria preciso quebrar a parede daquela construção.

Minha mãe muito brava, dizia:  Porque você fez isto? Este balanço só me traz más lembranças

Ele respondeu:

-Sua filha está curada, agradeça a Deus, e eu o coloquei para Denilde, nunca a vi mais feliz que naquele balanço e nunca vi nada mais bonito, eu a liberto da culpa que ela nunca teve.

Eu parei à porta, boquiaberta. Minha mãe encerrou a discussão dizendo:

-Deixe assim, já que está.

Na noite seguinte eu balancei e senti-me como antes, agradeci a meu tio e a Deus em lágrimas silenciosas.


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