Um balanço para sonhar
Eu tinha seis anos quando ele
chegou ,um balanço de ferro pintado em
três cores. Era um sonho.
Até esperar o cimento secar para
que pudéssemos brincar foi difícil.
Em poucos dias o interesse dos
meus irmãos foi diminuindo e o balanço era meu por várias horas.
No balanço eu sonhava, via meu
futuro, e o que eu gostaria de fazer quando adulta, ali eu podia chorar sem que
ninguém visse e podia ser o que eu bem entendesse: astronauta, marinheira,
cantora, estrela.
Eu tinha grande habilidade e
balançava em pé, a muitos metros do chão, o mais alto que conseguisse. Eu
falava com Deus e ele me respondia com o vento.
Aos nove anos, foram me buscar na
escola, minha irmã de sete anos havia caído do balanço e fraturado o crânio.
Quando o acidente ocorreu, ela
disse, para meu primo e meu irmão que assistiram a cena, que ia balançar como
eu.
O balanço foi trancado a chave, e
muitos me culparam pelo ocorrido.
Algumas vezes quando eu ficava só
em casa, eu roubava a chave e balançava bem baixinho, sem que ninguém visse; Em
poucos meses o balanço foi retirado e colocado em um porão.
Minha irmã se curou sem seqüelas,
apenas a cicatriz que ficou como um pequeno afundamento na cabeça. Ela jamais
me culpou pelo ocorrido.
Mudamos de casa e o balanço foi entre
a mudança e ficou jogado com os materiais de construção.
Certa feita, quando chegava da
escola, então com 13 anos, encontrei meu Lôlo e minha mãe discutindo, ele havia
instalado o balanço no quintal preso a uma lavanderia que estava fazendo para
minha mãe, para retirál- seria preciso quebrar a parede daquela construção.
Minha mãe muito brava,
dizia: Porque você fez isto? Este
balanço só me traz más lembranças
Ele respondeu:
-Sua filha está curada, agradeça
a Deus, e eu o coloquei para Denilde, nunca a vi mais feliz que naquele balanço
e nunca vi nada mais bonito, eu a liberto da culpa que ela nunca teve.
Eu parei à porta, boquiaberta.
Minha mãe encerrou a discussão dizendo:
-Deixe assim, já que está.
Na noite seguinte eu balancei e
senti-me como antes, agradeci a meu tio e a Deus em lágrimas silenciosas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário